
Vivemos numa época onde podemos começar a afirmar que, tal como a moda, a indústria do entretenimento é cíclica. Gostos, pancas e manias vão e voltam a uma velocidade estonteante e nestes últimos anos tem-se assistido a um agudizar disso mesmo, principalmente entre os mais jovens. Poderosos e míticos feiticeiros como Merlin ou Gandalf foram sendo “substituídos” por uma quantidade massiva de adolescentes que aprendem habilidades ao ritmo do desenvolvimento da acne. Os assustadores vampiros sedentos de sangue foram desaparecendo para dar lugar a versões mais efeminadas, com conflitos amorosos e que são cristalinos ao sol. Depois temos os zombies, que antigamente deambulavam em busca de cérebros e sangue e que hoje em dia… continuam em busca de cérebros e sangue. Menos mal.
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Em Fevereiro deste ano, numa altura em que os mortos-vivosestavam em alta, surgiu um novotrailer de um jogo que prometia explorar uma vertente mais emocional de uma catástrofe como esta: Dead Island. Este título, produzido pela Techland e revelado em 2007, começou a querer mostrar um ar da sua graça com um vídeo de apresentação algo polémico mas que foi desde logo considerado um dos melhores de todos os tempos, entusiasmando de imediato alguns dos melhores realizadores deHollywood.
Depois de assegurada uma adaptação para o cinema feita pela Lionsgate, tendo como base o próprio trailer, será que o jogo em si consegue corresponder à excitação criada e transmitir o sentimento incutido no vídeo?
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ATENÇÃO: Antes de mais convém frisar que este jogo foi testado e analisado na Playstation 3. Digo isto pois, após o visionamento de diversos vídeos e de ter comparado vários parâmetros entre as versões, cheguei à conclusão que a plataforma da Sony é aquela onde Dead Islandtem menos brio. Para todos aqueles que possuem este título numa outra plataforma e que se possam sentir algo indignados com a nota final, fica aqui este esclarecimento.
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Aquele que era considerado o paraíso na terra tornou-se exactamente no oposto. Encontramo-nos completamente sozinhos, tendo como único auxílio uma misteriosa voz que nos acompanha à medida que vamos descobrindo os primeiros seres incontrolados.
Depois de um primeiro blackout provocado por uma dessas criaturas, acordamos numa sala onde se encontra um pequeno grupo de sobreviventes, entre os quais se incluem os três restantes protagonistas que, tal como nós, possuem uma “pequena” particularidade: sãoimunes ao vírus, não sofrendo qualquer tipo de mutação após um ataque.
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As histórias de cada personagem, que só por si são bastantedesinteressantes e carregadas de estereótipos, não evoluem mais do que isto: seja qual for a personagem da vossa escolha, a acção irá decorrer sempre da mesma forma, não existindo qualquer espécie de progressão individual. Ao invés disso, haverá uma estória comum a todos os protagonistas, algo que será desde logo perceptível através das diversas cutscenes onde os quatro “sortudos” aparecem unidos e a dialogar entre si.
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No que diz respeito à jogabilidade, Dead Island é um título bastante competente e que tenta inovar com a sua vertente de combate corpo-a-corpo na primeira pessoa, dando preferência a armas brancas de curto alcance para que haja um maior sentimento de apreensão e desespero em momentos de confronto. Embora muita gente queira comparar “à força” este jogo com Left 4 Dead ou Dead Rising, tenho a dizer que o único aspecto que pode ser perfeitamente comparável entre estes títulos é mesmo… a presença de zombies. O estilo de jogo, não só pela acção em si como também pela sua vertente RPG, é bastante mais similar aFallout e até Borderlands.
Temos um imenso mundo aberto infestado de infortunados turistas (e não só) à nossa disposição, estando este dividido por várias zonas que vão desde um estabelecimento de luxo de seu nome Royal Palms Resort até aos mais repugnantes esgotos. Enquanto o exploramos, seja com o intuito de concluir as missões principais - que normalmente têm como objectivo a descoberta de personagens importantes para o enredo e prestação de auxílio às mesmas - ousecundárias - mais interessantes e variadas, podendo
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Esqueçam a estória e qualquer argumento forçado que possa ser utilizado para vos manter colados à consola: a verdadeira essência de Dead Island está na sua jogabilidade, na diversão e atésatisfação que nos proporciona e na experiência acumulada ao cumprir os objectivos, aniquilando todas as espécies de zombies que nos apareçam pelo caminho. Mas se pensam que esta é uma tarefa fácil, desenganem-se. Embora os lentos e famososwalkers dominem os cenários, é expectável que morram algumas vezes quando a estes se juntam os supersónicos (de onde é que apareceram?!) infected, os matulões thug e ram ou os borbulhosos e extremamente desfigurados suiciders, entre outros. Por cada morte perderão cerca de dez porcento do total de dinheiro amealhado, o que por vezes nos faz remoer sobre os investimentos que poderíamos ter feito anteriormente.
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Estão assim criadas as condições para uma sobrevivência “confortável” num cenário apocalíptico. Porém, quando nada disto parece funcionar e o intestino grosso parece querer dar sinal de vida, existe sempre um último recurso para nos salvar o canastro: o Fury. Esta habilidade especial, à semelhança do que acontece com todas as outras que compõem a “árvore” de cada uma dos protagonistas, varia consoante o estilo de jogo da personagem que controlamos. Enquanto Logan utiliza a sua destreza em arremessos de facas, habilidade certamente adquirida no futebol americano,Purna utiliza armas de fogo para dizimar qualquer ameaça em situações de aperto. Os parâmetros do Fury, assim como os de combate e de sobrevivência, podem ser melhorados a cada level up. Porém, convém utilizar essa “oferta” de forma sábia e num aspecto que realmente se adeqúe à nossa forma de jogar.
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É incrível como um título desta envergadura, que apostou tanto num trailer onde a emoção emanava por todos os poros, seja vendido ao público com modelos de personagens que quase fazem lembrar a geração passada. Embora sejamos confrontados com situações que, em condições normais, nos deixariam minimamente tocados – como o sujeito que chora pela família que se viu obrigado a matar ou a filha que abandona o pai por este ter sido infectado – em Dead Island tudo isso é encarado com uma certa indiferença. Nem o trabalho de vozes, que oscila entre o excelente e o medonho (focando-se maioritariamente na segunda opção), nos consegue fazer soltar uma lágrima que seja. Se as próprias personagens choram somente “lágrimas de crocodilo” e não transparecem nenhum tipo de comoção a nível físico, porque é que os jogadores haveriam de sentir algo diferente?
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A lista de erros e reparos para além da vertente gráfica é imensa. Começando pelainteligência artificial, esta é no mínimo hilariante. Os inimigos por vezes deambulam no meio do fogo e acabam por morrer enquanto outros, ansiosos por nos deitar as mãos, acabam por correr contra postes, muros ou até, por vezes, algumas paredes invisíveis. O spawn de inimigos é absurdo, o que não é propriamente um ponto negativo a meu ver: se o objectivo é pregar uns valentes “cagaços” aos jogadores e fazer com que estes se sintam frustrados ao morrer com um zombie que apareceu do nada, então espectacular; porém, se o objectivo é fazer de Dead Island um jogo minimamente “realista”, fazendo com que os inimigos apareçam quando e de onde faz o mínimo de sentido, então ainda é preciso algum trabalho neste campo.
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Apesar de todas as falhas das quais possa padecer, Dead Islandnão deixa de ser uma boa fonte de entretenimento, principalmente quando jogado em modo cooperativo. A possibilidade de nos juntarmos a três outros sujeitos, sejam eles amigos ou puros desconhecidos, para uma campanha de entreajuda é um dos principais pontos fortes deste jogo. Com uma fluidez impressionante, que não perde nada para o modo single player, jogadores de todos os cantos do mundo poderão concluir diversas missões em conjunto sendo que, para isso, existem alguns “requisitos mínimos”.
Os jogadores que encontraremos no lobby estarão, no máximo, uma missão à frente ou atrás daquela onde nos encontramos com a nossa personagem, o que significa que não existirá qualquer risco de perdermos um acontecimento vital no desenrolar da estória. Ao contrário do que acontece com outros títulos (como por exemplo Borderlands), não haverá qualquer problema caso percamos uma missão principal: aqui poderemos até alternar entre single player e multiplayer, continuando sempre a aventura com os parceiros mais indicados desde que estes cumpram o “requisito” anteriormente mencionado.
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Em suma, Dead Island é um título que procurou ser inovador e que, em certo ponto, conseguiu. Porém, naquela que era um das suas principais premissas – incutir emoção e dramaa um survival horror – falhou, muito por culpa do medíocre trabalho a nível de expressões faciais e vozes. Não se pode dizer que seja uma lufada de ar fresco na indústria, porque não o é, mas ainda assim é um jogo competente e capaz de proporcionar imensas horas de diversão aos fãs dos devoradores de cérebros. Se estão à procura de um jogo sandbox capaz de vos deixar agarrados ao controlador com o seu ambiente e acção de “cortar” o fôlego, então este título da Techland merece claramente uma oportunidade.


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Razoável
Razoável















Imenso mundo aberto, com uma atmosfera fantástica
... ao contrário das vozes humanas, que são na maior parte péssimas




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