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domingo, 27 de novembro de 2011

Dead Island

Vivemos numa época onde podemos começar a afirmar que, tal como a moda, a indústria do entretenimento é cíclica. Gostos, pancas e manias vão e voltam a uma velocidade estonteante e nestes últimos anos tem-se assistido a um agudizar disso mesmo, principalmente entre os mais jovens. Poderosos e míticos feiticeiros como Merlin ou Gandalf foram sendo “substituídos” por uma quantidade massiva de adolescentes que aprendem habilidades ao ritmo do desenvolvimento da acne. Os assustadores vampiros sedentos de sangue foram desaparecendo para dar lugar a versões mais efeminadas, com conflitos amorosos e que são cristalinos ao sol. Depois temos os zombies, que antigamente deambulavam em busca de cérebros e sangue e que hoje em dia… continuam em busca de cérebros e sangue. Menos mal. 


Contudo, tem existido nos últimos anos uma tendência para “estupidificar” os zombies com uma enorme quantidade de filmes de comédia. Não é que não tenha piada, mas o que é facto é que os bons filmes que fazem dapropagação de um vírus algo assustador começam a escassear com a emergência (e abrangência) deste género. Ainda assim, continuam a existir franquias como Left 4 Dead,Resident Evil (embora tenha vindo a “perder o gás”) e séries como The Walking Dead que tentam fazer jus a estas temíveis criaturas que ultimamente têm tido mais a função de divertir (Plants vs. Zombies Dead Rising são disso exemplo) do que de aterrorizar.

Em Fevereiro deste ano, numa altura em que os mortos-vivosestavam em alta, surgiu um novotrailer de um jogo que prometia explorar uma vertente mais emocional de uma catástrofe como esta: Dead Island. Este título, produzido pela Techland e revelado em 2007, começou a querer mostrar um ar da sua graça com um vídeo de apresentação algo polémico mas que foi desde logo considerado um dos melhores de todos os tempos, entusiasmando de imediato alguns dos melhores realizadores deHollywood.

Depois de assegurada uma adaptação para o cinema feita pela Lionsgate, tendo como base o próprio trailer, será que o jogo em si consegue corresponder à excitação criada e transmitir o sentimento incutido no vídeo?


ATENÇÃO: Antes de mais convém frisar que este jogo foi testado e analisado na Playstation 3. Digo isto pois, após o visionamento de diversos vídeos e de ter comparado vários parâmetros entre as versões, cheguei à conclusão que a plataforma da Sony é aquela onde Dead Islandtem menos brio. Para todos aqueles que possuem este título numa outra plataforma e que se possam sentir algo indignados com a nota final, fica aqui este esclarecimento.

Comecemos então pelo mais básico e essencial: a estória do jogo. A acção de Dead Islanddecorre em Banoi, uma ilha paradisíaca situada na Papua Nova-Guiné e um local com o qual somente as pessoas abastadas podem sonhar. Naintrodução podemos ver aquela que prometia ser mais uma grande noite de farra numa sequência onde nos são “apresentados” todos osprotagonistas. Os efeitos do álcool acabam por levar a melhor numa altura em que começamos a ver situações no mínimo bizarras. Com a ajuda de uns comprimidos pode ser que tudo passe e que o dia seguinte tudo volte ao normal… mas nada mais errado.

Aquele que era considerado o paraíso na terra tornou-se exactamente no oposto. Encontramo-nos completamente sozinhos, tendo como único auxílio uma misteriosa voz que nos acompanha à medida que vamos descobrindo os primeiros seres incontrolados.

Depois de um primeiro blackout provocado por uma dessas criaturas, acordamos numa sala onde se encontra um pequeno grupo de sobreviventes, entre os quais se incluem os três restantes protagonistas que, tal como nós, possuem uma “pequena” particularidade: sãoimunes ao vírus, não sofrendo qualquer tipo de mutação após um ataque.

Logan, uma ex-estrela da NFLcom um enorme ego e uma lesão que deitou tudo a perder, Purna, uma ex-agente da polícia que, após uma situação complicada, teve de prescindir da carreira e tornar-se guarda-costas de VIPs,Xian Mei, uma agente infiltrada chinesa que procura honrar o seu pai e mostrar que as mulheres têm as mesmas capacidades que os homens na defesa da lei e Sam B, um rapper cujo tema “Who Do You Voodoo, Bitch?” o transportou para as luzes da ribalta e para uma vida de dispêndio exorbitante, com muita droga e álcool à mistura, são as personagens com as quais iremos enfrentar uma imensa horda dezombies na tentativa de salvar o maior número de sobreviventes possível enquanto descobrimos uma forma de abandonar a ilha.

As histórias de cada personagem, que só por si são bastantedesinteressantes e carregadas de estereótipos, não evoluem mais do que isto: seja qual for a personagem da vossa escolha, a acção irá decorrer sempre da mesma forma, não existindo qualquer espécie de progressão individual. Ao invés disso, haverá uma estória comum a todos os protagonistas, algo que será desde logo perceptível através das diversas cutscenes onde os quatro “sortudos” aparecem unidos e a dialogar entre si.

E agora é aquela parte em que vocês perguntam: “Então mas se eu estiver a jogar sozinho as outras personagens continuam a aparecer nas cutscenes?”. E eu respondo: sim, isso e não só. Mesmo que estejamos a jogar a solo no modo campanha, não tendo qualquer parceiro para nos ajudar (nem mesmo controlado pela inteligência artificial), os três restantes protagonistas continuarão a aparecer do nosso lado nessas sequências como se lá tivessem estado o tempo todo. Contudo, o mais engraçado é o facto dos NPCs se dirigirem à nossa personagem no plural com palavras como “mates”, “buddies” e“friends” entre outras, havendo escassos momentos onde um ou outro sujeito fala connosco “normalmente”, como que a querer fintar a bizarrice imposta pela equipa de desenvolvimento de ter de falar não só para o protagonista como também para os amigos imaginários que o acompanham.

No que diz respeito à jogabilidadeDead Island é um título bastante competente e que tenta inovar com a sua vertente de combate corpo-a-corpo na primeira pessoa, dando preferência a armas brancas de curto alcance para que haja um maior sentimento de apreensão e desespero em momentos de confronto. Embora muita gente queira comparar “à força” este jogo com Left 4 Dead ou Dead Rising, tenho a dizer que o único aspecto que pode ser perfeitamente comparável entre estes títulos é mesmo… a presença de zombies. O estilo de jogo, não só pela acção em si como também pela sua vertente RPG, é bastante mais similar aFallout e até Borderlands.

Temos um imenso mundo aberto infestado de infortunados turistas (e não só) à nossa disposição, estando este dividido por várias zonas que vão desde um estabelecimento de luxo de seu nome Royal Palms Resort até aos mais repugnantes esgotos. Enquanto o exploramos, seja com o intuito de concluir as missões principais - que normalmente têm como objectivo a descoberta de personagens importantes para o enredo e prestação de auxílio às mesmas - ousecundárias - mais interessantes e variadas, podendo 
estas ir desde pequenos eventos contínuos (como achar água ou comida) até à matança de grupos de rufias que, em tempos de “crise”, se aproveitam do desastre para roubar tudo o que podem – o nosso grande objectivo é somente um: acumular o máximo de experiência possível.

Esqueçam a estória e qualquer argumento forçado que possa ser utilizado para vos manter colados à consola: a verdadeira essência de Dead Island está na sua jogabilidade, na diversão e atésatisfação que nos proporciona e na experiência acumulada ao cumprir os objectivos, aniquilando todas as espécies de zombies que nos apareçam pelo caminho. Mas se pensam que esta é uma tarefa fácil, desenganem-se. Embora os lentos e famososwalkers dominem os cenários, é expectável que morram algumas vezes quando a estes se juntam os supersónicos (de onde é que apareceram?!) infected, os matulões thug ram ou os borbulhosos e extremamente desfigurados suiciders, entre outros. Por cada morte perderão cerca de dez porcento do total de dinheiro amealhado, o que por vezes nos faz remoer sobre os investimentos que poderíamos ter feito anteriormente.

Com investimentos refiro-me principalmente a upgrades de armas, que podem ser feitos até quatro vezes, melhoria da condição das mesmas, pois vão-se danificando à medida que são utilizadas (e quanto mais danificadas estiverem, mais cara fica a sua recuperação), e até espectaculares e variadíssimas modificações, que podem ser conseguidas através da utilização de mods coleccionáveis(ganhos em missões ou escondidos no jogo) juntamente com diversos objectos capturados no decorrer da aventura. Os resultados podem ir desde um simples taco debaseball com pregos até uma pontiaguda katana que envenena ou paralisa os adversários.

Estão assim criadas as condições para uma sobrevivência “confortável” num cenário apocalíptico. Porém, quando nada disto parece funcionar e o intestino grosso parece querer dar sinal de vida, existe sempre um último recurso para nos salvar o canastro: o Fury. Esta habilidade especial, à semelhança do que acontece com todas as outras que compõem a “árvore” de cada uma dos protagonistas, varia consoante o estilo de jogo da personagem que controlamos. Enquanto Logan utiliza a sua destreza em arremessos de facas, habilidade certamente adquirida no futebol americano,Purna utiliza armas de fogo para dizimar qualquer ameaça em situações de aperto. Os parâmetros do Fury, assim como os de combate e de sobrevivência, podem ser melhorados a cada level up. Porém, convém utilizar essa “oferta” de forma sábia e num aspecto que realmente se adeqúe à nossa forma de jogar.

Dead Island é um título que, embora tente trazer algo de fresco à indústria dos survival horrors, não consegue atingir o nível de qualidade que muita gente ambicionava. A atenção a variados e pequenos pormenores na transformação de um destino de sonho num pesadelo real é notável. Ainda assim, é impossível deixar passar o fraco trabalho elaborado a nível gráfico. O nível de detalhe nas sombras e em diversas superfícies é extremamente mau, mas nada que se compare àquela que será uma das principais desilusões: as expressões faciais.

É incrível como um título desta envergadura, que apostou tanto num trailer onde a emoção emanava por todos os poros, seja vendido ao público com modelos de personagens que quase fazem lembrar a geração passada. Embora sejamos confrontados com situações que, em condições normais, nos deixariam minimamente tocados – como o sujeito que chora pela família que se viu obrigado a matar ou a filha que abandona o pai por este ter sido infectado – em Dead Island tudo isso é encarado com uma certa indiferença. Nem o trabalho de vozes, que oscila entre o excelente e o medonho (focando-se maioritariamente na segunda opção), nos consegue fazer soltar uma lágrima que seja. Se as próprias personagens choram somente “lágrimas de crocodilo” e não transparecem nenhum tipo de comoção a nível físico, porque é que os jogadores haveriam de sentir algo diferente?

Um dos melhores exemplos daquilo que estou a tentar explicar é claramente visível naspersonagens do sexo femininoque, tirando as protagonistas, parecem ter todas as mesmas feições. Isto significa que tanto as chinesas como as inglesas, sejam mais novas ou mais velhas, parecem todas autênticas cópias, sendo apenas possível distinguir qual será mais ou menos a sua idade através da voz ou do que vestem.

A lista de erros e reparos para além da vertente gráfica é imensa. Começando pelainteligência artificial, esta é no mínimo hilariante. Os inimigos por vezes deambulam no meio do fogo e acabam por morrer enquanto outros, ansiosos por nos deitar as mãos, acabam por correr contra postes, muros ou até, por vezes, algumas paredes invisíveis. O spawn de inimigos é absurdo, o que não é propriamente um ponto negativo a meu ver: se o objectivo é pregar uns valentes “cagaços” aos jogadores e fazer com que estes se sintam frustrados ao morrer com um zombie que apareceu do nada, então espectacular; porém, se o objectivo é fazer de Dead Island um jogo minimamente “realista”, fazendo com que os inimigos apareçam quando e de onde faz o mínimo de sentido, então ainda é preciso algum trabalho neste campo.

Mas o que é que pode ser mais assustador que o confronto físico contra dezenas de zombiesaparecidos de nenhures em simultâneo? As quebras deframerate que surgem principalmente nestas ocasiões (e também após secções de loading) que nos deixam por vezes durante quase um segundo sem saber se estamos a bater no ar, nos inimigos ou a morrer, que é a mais provável das hipóteses. Screen tearing, constantes falhas e desfasamentos de som, loading lag (pop-ups de imagem), objectos voadores, snacks e frutas que não recuperam energia e algunsglitches frustrantes juntam-se à lista de problemas que assolam pelo menos a versão PS3 deste jogo.

Apesar de todas as falhas das quais possa padecer, Dead Islandnão deixa de ser uma boa fonte de entretenimento, principalmente quando jogado em modo cooperativo. A possibilidade de nos juntarmos a três outros sujeitos, sejam eles amigos ou puros desconhecidos, para uma campanha de entreajuda é um dos principais pontos fortes deste jogo. Com uma fluidez impressionante, que não perde nada para o modo single player, jogadores de todos os cantos do mundo poderão concluir diversas missões em conjunto sendo que, para isso, existem alguns “requisitos mínimos”.

Os jogadores que encontraremos no lobby estarão, no máximo, uma missão à frente ou atrás daquela onde nos encontramos com a nossa personagem, o que significa que não existirá qualquer risco de perdermos um acontecimento vital no desenrolar da estória. Ao contrário do que acontece com outros títulos (como por exemplo Borderlands), não haverá qualquer problema caso percamos uma missão principal: aqui poderemos até alternar entre single player multiplayer, continuando sempre a aventura com os parceiros mais indicados desde que estes cumpram o “requisito” anteriormente mencionado.

Interessante é o facto de podermos cooperar com jogadores bem mais fortes do que nós de uma forma relativamentejusta e eficaz: novatos de nível 8 partilham o mesmo espaço que jogadores de nível 40 que se encontrem na “segunda volta” com a mesma personagem, sendo que neste caso o grau de dificuldade dos adversários consistirá numa média dos níveis de todos os presentes. Se os nossos companheiros estiverem todos acima do nível 40 e nós, infelizes, abaixo do nível 10, é natural que não consigamos matar zombies sem recorrer à ajuda de alguém. Pode ser um pouco frustrante ao início, mas a experiência partilhada entre todos é bastante favorável nestes casos.

Para além de uma campanha com uma longevidade assinalável, que pode ir desde 14 a 30 horas (dependendo da quantidade de missões secundárias que realizarmos),Dead Island dá-nos a possibilidade de prolongar a nossa experiência de jogo com um modo new game plus. Voltaremos desta forma à ilha deBanoi com toda a experiência,armas e habilidades com que terminámos o percurso anterior. Contudo, se achavam que isso vos iria facilitar totalmente a tarefa, aproveito para informar que os zombies também se encontrarão mais fortes, algo que irão reparar até mesmo na primeira campanha: os mortos-vivos não têm um nível específico mediante a zona em que se encontram – este vai aumentando à medida que nós evoluímos, o que torna a aventura mais desafiante. Considerem esta uma excelente oportunidade de reviver a mesma estória com a mesma personagem mas, mesmo assim, ficarem amedrontados sempre que ouvem os assustadores gritos provenientes de um sítio que não sabem bem qual é.

Em suma, Dead Island é um título que procurou ser inovador e que, em certo ponto, conseguiu. Porém, naquela que era um das suas principais premissas – incutir emoção e dramaa um survival horror – falhou, muito por culpa do medíocre trabalho a nível de expressões faciais e vozes. Não se pode dizer que seja uma lufada de ar fresco na indústria, porque não o é, mas ainda assim é um jogo competente e capaz de proporcionar imensas horas de diversão aos fãs dos devoradores de cérebros. Se estão à procura de um jogo sandbox capaz de vos deixar agarrados ao controlador com o seu ambiente e acção de “cortar” o fôlego, então este título da Techland merece claramente uma oportunidade.

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Razoável


Imenso mundo aberto, com uma atmosfera fantástica
Combate divertido e recompensador
Elementos RPG bem implementados
Grande longevidade
Modo cooperativo
Vozes dos zombies assustadoras e excelentes...
... ao contrário das vozes humanas, que são na maior parte péssimas
Argumento fraco e desinteressante
Grafismo em geral, realçando as sombras e os modelos faciais
Inteligência artificial dos inimigos
Screen tearing que, por vezes, prejudica a experiência de jogo
Imensos glitches
analise do mygame

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